Haiti: 3 meses depois, o trabalho continua
Terça, 20 Abril 2010 13:33

Localizado num lado de uma rua poeirenta de Port-au-Prince, o Campo Ravine Pintade foi assim chamado por causa dos seus arredores. Desde o terramoto de 12 Janeiro que tem sido a casa para mais de 400 famílias.


Estagene Guerrier, 86 anos, está entre aqueles que dormem ao relento em colchões ou no chão porque têm medo que as paredes lhes possam cair em cima. A casa de Estagene ficou reduzida a um monte de entulho. “Não me sinto bem. Dói-me a cabeça e tenho dores nas pernas. Não consigo dormir e preciso de arranjar a minha casa”, diz ela.
Nas noites de chuva ninguém dorme porque a água entra nos seus abrigos e molha cobertores e lençóis que possam existir. Alguns, como Jeanne Delly de 64 anos, são incapazes de ficar em pé enquanto esperam que a chuva acabe. Jeanne ficou presa durante seis horas na sua casa destruída. Tem um braço partido e uma perna aleijada e está penosamente magra. “Sinto que deixei de viver”, diz Jeanne. “Estou a sofrer e não tenho ninguém.” A filha de Jeanne e os três netos foram mortos. O seu filho sobreviveu, mas como muitos sobreviventes do sismo, ela sente-se completamente sozinha.
Em Port-au-Prince, cerca de 600.000 pessoas estão a viver em campos improvisados, que estão a aumentar de número e tamanho visto que muitos dos que fugiram da cidade estão a regressar. O sismo atingiu o Haiti há três meses atrás e deslocou mais de 1.3 milhões de pessoas.
Isto é só o princípio
Mesmo depois da distribuição de milhares de tendas, lonas e outros bens de socorro de emergência, incluindo milhares de litros de água e toneladas de alimentos, as pessoas continuam a ter extremas carências em Port-au-Prince e em cidades próximas como Leogane e Petit-Goave.
Iain Logan, chefe das operações de socorro no Haiti da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, diz: “O nosso trabalho ainda só agora aqui começou. Subimos ao cimo da montanha apenas para ver o que se depara à nossa frente”.
A resposta da Federação no Haiti, para a qual a Cruz Vermelha Portuguesa contribuiu com 500.000 Euros, é a maior de sempre e a primeira na qual a maioria das pessoas vive numa cidade densamente povoada. Para além de abrigos de emergência, a Cruz Vermelha ajudou cerca de 400.000 pessoas em termos de saneamento, cuidados de saúde, vacinações, serviços de reunificação de famílias e apoio psicológico.
”Fizemos isto apesar de imensas dificuldades e complicações logísticas e desafios de coordenação”, diz Logan.
O sucesso é em parte devido à cooperação entre a Cruz Vermelha Haitiana e outras Cruzes Vermelhas de todo o mundo. Centenas de líderes, funcionários e voluntários da Cruz Vermelha Haitiana, em quem as suas comunidades confiam e aceitam, têm ajudado representantes de várias Sociedades Nacionais a levar ajuda essencial às pessoas no Haiti.
À medida que a fase de emergência continua nos próximos 12 meses, a Federação irá continuar a dar água, saneamento, serviços de saúde e bens de socorro. Os planos para a fase de recuperação incluem a construção de abrigos transitórios, apoio aos meios de subsistência, pré-posicionamento de bens de socorro para desastre, e a prestação de formação que irá fortalecer a capacidade da Cruz Vermelha Haitiana para responder a futuras emergências.
Precisamos de mais espaço
Ernso St. Louis, de 27 anos, vive num afloramento rochoso agora chamado Campo Neptune. A sua camisa passada demonstra que tem mantido a sua auto-estima mesmo em condições de vida complicadas. Como todos à sua volta, tem cerca de um metro quadrado de espaço privado, e mesmo esse é provável que lhe seja retirado. “O campo onde estamos agora é um terreno privado e o dono pode vir e expulsar-nos a qualquer altura”, diz.
Ernso tem trabalhado com o comité de liderança do campo para tornar a vida melhor para os residentes que têm necessidades básicas de abrigo, água e casas de banho. Agora gostariam que o governo Haitiano ajudasse a remover os destroços, uma acção que daria às pessoas uma esperança para o futuro.
“Quando se lhes mostra que há possibilidades, então elas conseguem começar a construir elas próprias as casas, “ diz Ernso. “Quanto mais cedo toda a gente possa voltar para onde estavam antes do sismo, melhor”.
Os abrigos transitórios irão tirar algumas pessoas que se alojam sob tendas e lonas.
A Cruz Vermelha e os seus parceiros de alojamento irão erigir 120.000 estruturas transitórias suficientemente fortes para durarem vários anos enquanto a reconstrução vá sendo feita. E, contudo, esta enorme resposta de recuperação é apenas uma solução temporária para restabelecer Port-au-Prince, uma cidade central no bem-estar económico e cultural do Haiti.
”Port-au-Prince é um projecto para o resto da nação”, diz Logan. “Se fizermos um bom trabalho aqui, então talvez consigamos fazer do resto do Haiti um lugar melhor.”