Haiti: Joe, o rapaz de lado nenhum
Segunda, 25 Janeiro 2010 17:48

A primeira vez que vimos Joe, de quatro anos, foi devastador. Mal conseguia sentar-se, a limpar migalhas de um pequeno pedaço de cartão que se tinha tornado a sua casa. Arranjou um espaço para dormir, como faria a sua mãe, os seus olhos reviraram-se na sua cabeça, e ele mergulhou num estado de confusão.
O Joe veio de lado nenhum. Alguém reparou nele a dormir despido no chão e foi trazido para um hospital de campanha da Cruz Vermelha situado no centro da capital destruída do Haiti.
Mageli St Simon, uma voluntária de apoio psicológico da Cruz Vermelha Haitiana começou a tomar conta dele. “A cabeça dele estava ferida”, diz. “E estava doente, talvez malária, talvez tifóide.”
Mageli começou a interagir com a criança doente e, depois de mais ou menos um dia, conseguiu saber o nome dele. Ela deu-lhe uma caneta e papel e ele desenhou a sua mãe e pai. Depois ela deu-lhe um telefone de brincar.
“Ele começou a falar com a mãe. Perguntei-lhe o que ela dizia. Ele respondeu-me: “Ela diz não procures por mim, estou morta.” “Não sei como é que ele sabia, alguém lhe deve ter dito antes de ele se perder.”
Passados três dias, o Joe está bem. Ainda está doente, mas bebe água e come pouco. Ele desenha-nos uma cruz. É um bonito e frágil rapazinho, com um ligeiro estrabismo que o faz parecer ainda mais vulnerável; faz-nos querer protegê-lo.
Mageli concorda. “Temos de nos conhecer a nós próprios antes de conhecermos os outros,” diz. “É por isso que tomo conta do Joe, para saber o que ele precisa. Não posso dar dinheiro às pessoas, mas posso ajudar da minha própria maneira.”
Se o Joe não tiver familiares que assumam a responsabilidade de cuidar dele, o pequeno rapaz irá para um orfanato assim que for encontrada uma organização adequada que trabalhe com órfãos. E ele ficará bem. É um sobrevivente.