Haiti: situação catastrófica
Quarta, 20 Janeiro 2010 08:31

Os habitantes de Port-au-Prince estão a lutar pela simples sobrevivência. Sedentos e famintos, encontram-se exaustos e começam a aperceber-se o que lhes está a acontecer. O Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV) intensificou os seus esforços e empenha-se na distribuição de alimentos, água e medicamentos aos milhares de sobreviventes.
Situação geral
Para muitos habitantes de Port-au-Prince, a situação é verdadeiramente catastrófica.
“O acesso aos abrigos, instalações sanitárias, água, alimentos e aos cuidados médicos continua extremamente limitado”, explica Ricardo Conti, chefe da delegação do CICV no Haiti. “Apesar da presença dos actores humanitários começar a produzir os seus efeitos nos hospitais e nas clínicas, as estruturas médicas em Port-au-Prince têm sempre falta de pessoal e de medicamentos. Dada a amplitude das necessidades, a tarefa que espera às organizações humanitárias é gigante.”
Em Christ-Roi, Delmas, Carrefour e em praticamente todos os restantes bairros da capital, as ruas estão cheias de pessoas, acampamentos improvisados e pilhas de lixo em chamas. Muitos habitantes parecem ter abandonado as buscas para encontrar os cadáveres. Sentados sobre os escombros de um edifício ruído, há homens ocupados em quebrar blocos de cimento para recuperar tudo que possa servir. Formam-se longas filas caóticas nas raras bombas de gasolina ainda em serviço. As forças armadas e os polícias tentam, em vão, impor um pouco de ordem entre a multidão de clientes.
“As pessoas tornam-se cada vez mais agressivas porque precisam de água e de alimentos”, explica Sherley, uma sobrevivente de 29 anos. “À medida que nos vamos apercebendo que não vamos encontrar os nossos familiares, é como se tomássemos consciência daquilo que nos está a acontecer.”
O CICV continua a intensificar os seus esforços para fazer face à crise; actualmente, é abastecida água a três quartos da cidade. Durante a noite de domingo, chegaram a Port-au-Prince seis camiões com auxílio humanitário do CICV, abrangendo medicamentos e material médico, que permitiram reforçar a capacidade da instituição na ajuda aos necessitados.
Riscos de epidemias
Seis dias após o sismo, a situação em termos de saúde e de saneamento torna-se cada vez mais precária nos acampamentos improvisados.
O acesso às instalações sanitárias e à água é extremamente limitado, na medida em que os serviços e as infra-estruturas ficaram praticamente reduzidas a nada e um número incalculável de pessoas dorme na rua. Um cheiro insuportável a urina flutua um pouco por todo o lado em Port-au-Prince.
“Devemos responder o mais rapidamente às necessidades de água e saneamento se queremos limitar os riscos de epidemias, afirma Ricardo Conti. Trata-se de uma questão primordial.”
O CICV utiliza actualmente camiões cisterna para fornecer água potável a cerca de 7.500 pessoas instaladas nos acampamentos improvisados. No bairro de Delmas, foram igualmente construídas latrinas para cerca de 1.000 pessoas.
“A água não serve somente para matar a sede”, explica Guy Mouron, coordenador do CICV encarregue pelo aprovisionamento de água e saneamento no Haiti. “Quando perdemos tudo, o facto de nos podermos lavar permite-nos limpar e reencontrar a dignidade.”
Tensões crescentes
O preço dos géneros alimentares e dos transportes aumentaram em flecha desde terça-feira e as cenas de violência e de pilhagem multiplicam-se à medida que o desespero cresce.
“As pessoas perderam tudo. Não há dinheiro e o mercado negro floresce”, conta Verlène, uma assistente administrativa de 31 anos. “Em Delmas, onde eu vivo, surgiram pilhagens. À noite somos barricados no interior. Os proprietários dos alojamentos possuem armas e não hesitam em servir-se delas. Aqui, os indivíduos começaram a gritar que ia chegar um tsunami para que as pessoas fugissem e lhes pudessem roubar aquilo que lhes restava.”
Os delegados do CICV afirmam que existem traficantes de legumes e de frutos nas ruas, embora poucos clientes, pois ninguém possui meios para comprar os alimentos. Num bairro de Port-au-Prince, o preço do pão duplicou desde a semana passada.
Muitos daqueles que possuem meios, partem. Em Martissant, os autocarros que saem da cidade estão lotados e a fronteira com a república Dominicana será tomada de assalto pelos habitantes de Port-au-Prince que procuram sair do país. Perto do aeroporto, os americanos de origem haitiana fazem fila à frente da embaixada dos Estados Unidos, esperando poder sair do país.
Nesta altura, instala-se a indiferença na cidade de Port-au-Prince. Os habitantes começaram a empilhar os cadáveres às suas portas. “Na noite passada, na longa Estrada dos Frères, vi pessoas a queimarem corpos numa sepultura improvisada na parte inferior da estrada”, conta uma mulher ao CICV.
Actividades do Comité Internacional da Cruz Vermelha
O CICV que esteve já presente em actividade antes do sismo de terça-feira, actua enquanto componente do Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, e trabalha em estreita cooperação com a Sociedade Nacional da Cruz Vermelha Haitiana.
O CICV aprovisionou água potável a 7.500 sobreviventes e forneceu auxílio à Cruz Vermelha Haitiana destinados aos dez postos de primeiros socorros que foram erguidos nos diversos acampamentos improvisados na capital. Estes postos mantêm-se operacionais e poderão dispensar os seus medicamentos de base a milhares de pessoas.
O CICV também forneceu 500 sacos para corpos aos militares brasileiros da missão das Nações Unidas, encarregues pelo levantamento de corpos de Port-au-Prince.
Antes da chegada de seis camiões com uma carga de cerca de 40 toneladas de auxílio militar do CICV no domingo, a instituição, com o apoio da Cruz Vermelha Haitiana, já tinha fornecido kits médicos para tratar 2.000 pacientes em dois hospitais de referência em Port-au-Prince. Foram igualmente distribuídos vários cobertores e lonas de plástico.
Uma segunda equipa de mobilização rápida do CICV é esperada no Haiti dentro de um ou dois dias para transportar apoios nos domínios da medicina legal, da pesquisa e da logística às equipas já presentes no local.
Os delegados do CICV visitaram vários lugares de detenção em Port-au-Prince com a finalidade de avaliar as necessidades.
Dada a amplitude da catástrofe, o CICV ainda não é capaz de fornecer os números exactos sobre o número de mortos e de feridos.
Entretanto, a primeira das 16 unidades de intervenção de emergência da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho mobilizadas chegou a Port-au-Prince. A unidade cirúrgica norueguesa de mobilização rápida e uma unidade de cuidados médicos finlandesa chegaram domingo com auxílio médico e vão poder começar a praticar as operações hoje. Uma unidade de socorro americana está a operar em Port-au-Prince. Uma unidade alemã de cuidados médicos de base e uma unidade espanhola especializada nas telecomunicações chegarão hoje. A unidade da Cruz Vermelha Britânica especializada na logística já se encontra em São Domingos e um hospital de campanha, bem como uma unidade especializada em água e saneamento chegarão nos próximos dias. O CICV contínua a trabalhar em estreita cooperação com a Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho para assegurar que todas estas unidades de intervenção de emergência esperadas no Haiti possam aterrar o mais rápido possível.
Reunificação Familiar
O CICV prepara-se para criar um escritório na sede da Cruz Vermelha Haitiana para ajudar as pessoas que foram separadas da família ou que estão à procura dos seus próximos desaparecidos. As pessoas terão do mesmo modo a possibilidade de dar o seu nome para fazer saber que estão sãos e salvos. Este escritório permitirá às pessoas receber novidades dos seus entes, bem como transmitir novidades.
No dia 18 de Janeiro, mais de 22.000 pessoas estavam registadas no website especial do CICV (www.icrc.org/familylinks), activado a 14 de Janeiro para ajudar as pessoas à procura dos seus familiares.
A grande maioria das pessoas registadas procura obter novidades sobre os membros da sua família. Contudo, perto de 1.500 pessoas utilizaram o site para saber quais os que estavam vivos. No total, 220 pessoas pediram ao CICV para retirar da lista o nome de pessoas que lhes eram próximas e que foram localizadas, pelos seus próprios meios ou devido ao site na internet.

Para obter informações sobre as formas de donativo para o Fundo de Emergência da Cruz Vermelha Portuguesa - "Apelo vítimas sismo Haiti" e assuntos relacionados, clique aqui.