Timor: as vítimas não contabilizadas do El-Niño
Terça, 26 Julho 2016 15:10

Nos últimos 6 meses em Timor, uma lenta seca tem provocado dificuldades a mais de 120.000 pessoas em todo o país. Em muito devido ao El Niño, a falta de chuvas significou a perda de cultivos , o que gerou a perda de rendimentos e escassez de alimentos e água para muitos.

Mais de 60% da população timorense está envolvida na produção agrícola e a falta de água, desencadeada pelo fenómeno do El Niño, está a afetar os meios de subsistência de milhares de produtores sazonais e de criadores de gado. Prevê-se que quase 50% das famílias do país venham a experienciar diversos níveis de insegurança alimentar.

 nino1   Para muitos a perda dos animais, em particular, corresponde à perda dos seus bens essenciais de vida e tem um impacto na sua capacidade de enviar os seus filhos para a escola e pagar outras despesas domésticas. Os animais são também utilizados na preparação dos terrenos para a próxima estação de cultivo. 

A Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho lançou um apelo de emergência que pretende apoiar 20.000 pessoas durante 10 meses nos distritos mais afetados pela seca. A operação é liderada  pela Cruz Vermelha de Timor Leste (CVTL) e espera-se ajudar de várias formas. Providenciando dinheiro para ajudar as pessoas a comprar comida e bens de primeira necessidade é uma das formas. Também se tem como objectivo o apoio nutricional a famílias sinalizadas, especialmente onde haja grávidas ou mulheres a amamentar. Isto será acrescido com a distribuição de sementes para culturas domésticas como opção para o crescimento de bons nutrientes alimentares. Mas como muitas famílias perderam as suas produções, procurar-se-á ajudá-las a recomeçar com diversas fontes de rendimento. O objectivo global é construir mais resiliência nas comunidades através de diferentes intervenções.

O que se encontra em Timor-Leste é uma situação onde o impacto do El Niño, um fenómeno cíclico, empurrou as pessoas para além das suas estratégias normais para lidar com estas situações. A CVTL tem apoiado o impacto da seca nos meios de subsistência das pessoas e na segurança local dos alimentos.

A principal preocupação no momento é que as suas sementeiras foram destruídas, como o arroz e o milho. Não têm mais recursos e mesmo os vegetais que tinham plantado não produzem o suficiente.

Uma senhora relata que têm receio de comer os seus escassos alimentos que mantêm em reserva, pois não terá nada para a próxima estação de plantação. Também os seus animais reduziram em número. Dizem que as mortes se devem ao calor, o que os expõem a mais doenças.

“O meu grande medo é que tenhamos que vender os nossos pertences, alguns dos quais são importantes na nossa tradição”, disse José da Costa, um dos idosos da aldeia. “Os animais muitas vezes são para propósitos cerimoniais e são parte crucial na vida destas pessoas nessas aldeias.” José mostra o seu galo premiado dizendo, “Eu não quero vender o meu galo, apesar de hoje ele ter perdido a luta”.   nino2

A próxima aldeia é bem junto ao mar. Aí vivem pescadores e agricultores. Contam que as suas culturas também falharam e que quase não têm qualquer tipo de comida. O pouco dinheiro que lhes resta é usado para comprar arroz.

Um dos homens que é proprietário de um barco de pesca disse que o peixe este ano é menos e que tem de ir para mais longe apanhar alguma coisa. Remar para tão longe para alcançar águas frias onde está o peixe não é fácil.

Perguntou-se a três mulheres, uma senhora nos seus 80 anos, outra nos seus 40 e uma jovem estudante o que tinham comido no dia anterior. A mais velha disse: “Apenas comi papa de arroz com água”. As outras duas disseram que comeram arroz três vezes por dia, apenas arroz e algumas malaguetas.
Maria, a mulher de meia-idade, disse que vai para a cama com fome todas as noites e que isso não é normal já que habitualmente há comida suficiente durante o ano.

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Apesar de o El Niño estar a terminar, os cientistas reportam que há uma maior probabilidade de nos próximos meses se formar um evento La Niña. Isto pode significar um novo desastre para Timor-Leste, uma vez que pode trazer um aumento da média anual de chuvas, no país. A ameaça de inundação teria um sério impacto nestas mesmas pessoas e que já estão com dificuldade de recuperar desta seca.