Novo Relatório Mundial sobre Desastres apela a um maior reconhecimento e apoio para os actores humanitários locais
Sexta, 25 Setembro 2015 10:56
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Os actores locais são frequentemente os mais eficazes na realização de operações humanitárias. No entanto, apesar do seu papel determinante, debatem-se para atrair o financiamento e o apoio de que necessitam.
 
O Relatório Mundial sobre Desastres de 2015 – lançado ontem pela Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (FICV) – examina as complexidades e os desafios que os actores locais enfrentam para sustentar a sua resposta humanitária.

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Embora amplamente reconhecida, a eficácia das organizações humanitárias locais ou nacionais não se encontra reflectida nas tendências de financiamento humanitárias. O Relatório assinala, por exemplo, que do financiamento total atribuído a ONGs internacionais, regionais, nacionais e locais, entre 2010 e 2014, apenas 1,6 por cento desses fundos foram canalizados directamente para as ONG nacionais e locais.

O relatório exorta a comunidade humanitária para trabalhar em conjunto a fim de garantir mais parcerias com actores locais e eficientes fluxos de financiamento, incluindo ao nível da comunidade, onde as necessidades humanitárias são maiores e os impactos do desenvolvimento são mais sentidos. 
 
Esta publicação apresenta o paradigma de uma mudança rumo à "localização" da ajuda e uma parceria mais igualitária entre os actores locais e internacionais.
 
"Os actores locais são sempre os primeiros a responder. Em 2015, vimos pessoas e organizações locais no centro de operações de salvamento de milhares de prisioneiros nos escombros após o terramoto no Nepal, criando centros de evacuação na esteira do ciclone Pam em Vanuatu, e na linha da frente do prolongado conflito na Síria, "disse Elhadj As Sy, Secretário-Geral da FICV.
 
"Mas a sua eficácia vai além da sua proximidade. Grupos locais, incluindo as Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, são eficazes por causa da perspectiva que trazem, a sua compreensão da língua e normas culturais, e porque estão permanentemente presentes nas comunidades e são capaz de acompanhá-las para enfrentar os riscos antes da ocorrência de catástrofes."
 
A FICV apela ao incremento de recursos e apoio para os actores humanitários locais e nacionais.
 
"A responsabilidade para responder às catástrofes em grande escala não deve, todavia, ser transferida inteiramente para os actores locais. Deve ser alcançado um melhor equilíbrio," disse o Secretário-Geral, Elhadj As Sy. "Os parceiros internacionais ainda têm um papel decisivo a desempenhar, incluindo na disponibilização de recursos especializados e com competência específica, quando os recursos locais se encontram sobrecarregados. Mas esse apoio deverá ser prestado com humildade, confiança e respeito, e como um compromisso para a construção de capacidade local."
 
No início deste ano, a FICV anunciou a coligação “Um bilião para a resiliência”  – uma nova parceria para deixar, até 2025, um bilião de pessoas fora de situações de risco e vulnerabilidade e tornar-se mais resiliente face a choques e riscos. Isto só será possível através da parceria, e maior apoio, aos actores locais.

Sobre o Relatório Mundial sobre Desastres
O relatório mundial de catástrofes é uma publicação anual, independente, produzida pela FICV, que oferece informações e análises reais sobre os desafios, tendências e inovações na mitigação de riscos e na gestão de crises. O relatório é uma importante ferramenta de pesquisa, baseado nas discussões que tiveram lugar, em 2015, em Sendai, durante a Conferência Mundial das Nações Unidas sobre a Redução de Riscos Associados às Catástrofes assim como a adopção dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável. Contribui igualmente para a Cimeira Humanitária Mundial do próximo ano, na qual a localização da ajuda irá figurar como um dos principais pontos de agenda .

As catástrofes em 2014

  • Em 2014, foram reportadas 317 catástrofes naturais em 94 países, de acordo com o Centro de Pesquisa de Epidemiologia das Catástrofes (CPEC). O número de catástrofes naturais foi o mais baixo da década, 17% abaixo da média.
  • Em 2014, cerca de 107 milhões de pessoas foram afectadas pelas catástrofes, um aumento face ao ano anterior. Não há dúvida de que as alterações climáticas irão aumentar a frequência e a gravidade das catástrofes, bem como o número de pessoas afectadas.
  • Em 2014, as catástrofes provocaram 8.186 mortes em todo o mundo. No entanto, a taxa de mortalidade foi quase 90% inferior à média da década. 2014 foi também o ano em que se registou a taxa mais baixa de mortalidade desde 1986 (7.303). No entanto, a taxa de mortalidade devido à epidemia de Ébola  na África Ocidental (8.600) foi superior à taxa de mortalidade total provocada por catástrofes naturais, em 2014.
  • Em 2014, 48% das catástrofes ocorreram na Ásia. Onde foram, igualmente, registadas mais de 85% de mortes e 86% do total de pessoas afectadas. Esta alta taxa de mortalidade na Ásia coincide com uma menor taxa de mortalidade nas Américas, onde se registam 8% face à média de 25%.
  • A China foi o país mais afectado, com secas, tempestades e inundações atingindo mais de 58 milhões de pessoas. Em agosto de 2014, um sismo provocou 731 mortos, registando a maior taxa de mortalidade relativa a uma catástrofe natural.
  • Em 2014, 87% das catástrofes estiveram relacionadas com o clima. Este número confirma uma tendência de duas décadas em que se verifica que o número de catástrofes relacionadas com o clima excede o número das catástrofes geofísicas dos 10 países mais afectados do mundo.
  • As inundações e os deslizamentos de terras representaram 49% das catástrofes naturais em 2014, causando 63% do número total de mortes provocadas por catástrofes e 34% do número total de pessoas afetadas, as inundações na Índia, no Paquistão e nos Balcãs figuram entre as mais dramáticas. A seca atingiu cerca de 38% do número total de pessoas afectadas por catástrofes.
  • Morreram 5.884 pessoas devido a acidentes tecnológicos. O naufrágio do Ferry Sewol, na República da Coreia, provocou 304 mortes, o número mais elevado registado. Outros 9 acidentes tecnológicos provocaram mais de 100 mortes cada um, num total de 1.537. Os acidentes de transporte atingiram 74% da mortalidade devido a acidentes tecnológicos.
  • Em 2014, os prejuízos económicos foram estimados em 99,2 milhões de dólares americanos, inferior ao número médio de 147 milhões verificados na última década. As inundações em Jammu e em Caxemira e o ciclone Hududh na Índia foram das catástrofes mais dispendiosas, atingindo 16 milhões de dólares americanos respectivamente. Pela primeira vez desde 1980, o mundo viveu uma queda consecutiva de prejuízos económicos nos últimos três anos.

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